Queijo de Marajó, delícia cercada de histórias

Queijo de Marajó _ Foto_Embrapa

Quando ouvir falar em queijo de Marajó, não confunda com muçarela de búfala. Embora feito com o mesmo tipo de leite, não tem nada a ver com as bolinhas brancas mais facilmente encontradas pelo resto do Brasil. É vendido em barra, macio, com textura que lembra o requeijão mineiro.

O sabor, porém, é muito próprio. A suavidade do gosto combinada à maciez da textura faz dele uma experiência rara ao paladar. Difícil provar e não guardar para sempre na lembrança. E não bastasse isso, o queijo de Marajó é cercado de histórias curiosas. Aqui vão algumas delas:

(1) O queijo do Marajó difere dos demais por dispensar o tempo de maturação. Ainda fresco, o leite é levado a uma centrífuga, que o separa da gordura. Daí, o leite descansa por 24 horas até coalhar, depois é levado para a panela para ser cozido. A partir daí, pode ser feito de dois tipos, creme (com a nata do leite) ou amanteigado (com a manteiga do leite).

(2) Há muitas versões de como os búfalos chegaram à ilha, mas a mais interessante é a de que um navio, que transportava búfalos da Índia para a Guiana, naufragou próximo à costa e alguns dos animais conseguiram sobreviver, indo parar nas praias da ilha. Daí, foram se reproduzindo.

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(3) Hoje, Marajó tem quase um búfalo por habitante. Com vantagem para os búfalos. Quando foi feito o censo de 2017, a ilha tinha 358 mil moradores e 376 mil cabeças de búfalo. A maioria deles ocupa áreas em fazendas no interior, onde são utilizados, inclusive, para montaria.

(4) Fazer queijo de leite de búfala se tornou um hábito tão propagado por toda a ilha, produzia-se em tantos lugares e de tantas maneiras, que a Agência de Defesa Agropecuária do Pará (Adepará) proibia qualquer um de transportar queijo para fora de Marajó. Era confiscado, igual na alfândega.

(5) A exportação só passou a ser legal em 2013, quando foi criada uma norma sanitária específica para produtos artesanais. No entanto, para sair, o queijo tem que ter o selo da Copmarajó, atestando que o produto foi fiscalizado. (Obs: Devo confessar que saí de lá com um quando visitei a ilha em 2011, e nem sabia da proibição).

(6) Como a certificação da Copmarajá não é reconhecida pelo Governo Federal, o queijo de Marajó ainda não pode ser vendido em outros estados, embora possa ser comprado até no Mercado Livre. No entanto, eis um bom pretexto para ir até a ilha. Afinal, nada se compara à experiência se conversar com quem o fabrica e saber das histórias que cercam a feitura do produto.

Jornalista

Jornalista paraibano radicado em Brasília. Há 30 anos, trabalha com jornalismo cultural e, mais recentemente, com os assuntos de gastronomia. Passou pelas redações do Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal da Paraíba, Veja Brasília e site Metrópoles. É autor do livro O Fole Roncou, finalista do Prêmio Jabuti em 2013. Atualmente, também é editor do Boníssimo (link para bonissimo.blog), blog que aborda assuntos de cultura, diversão e ações positivas. Está no Gastronomix desde sua criação em 2009.

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