Proust e a macarronada de domingo

macarronada

Cada um de nós traz no coração a lembrança de uma comida marcante de sua infância. Aquele prato capaz de desencadear um fluxo de emoções, misturando prazer, dor e saudades, como uma madeleine proustiana.

No meu caso, minhas melhores lembranças gastronômicas estão ligadas à minha avó materna. A velha casa do Engenho de Dentro era o lugar por excelência do prazer à mesa, da descoberta de sabores.

Como boa filha de portugueses, minha avó se especializava nos pratos tradicionais da terrinha. Seu bolinho de bacalhau era quase um vício para mim e meu irmão, que esperávamos a ceia de Natal com ansiedade para poder comer quantos quiséssemos.

Mas nosso prato preferido, a minha madeleine pessoal, era a tradicional macarronada de domingo. O molho era espesso, abundante; a massa tinha a consistência certa. Era o meu momento de prazer nos fins de semana.

Relato tudo isso porque, outro dia, tive um desses momentos proustianos, de recordação e volta ao passado. Foi no Il Perugino, meu restaurante favorito em Itaipava (e do qual já falei nesta coluna).

A macarronada do meu tio Sérgio 

Como sou cliente contumaz, conheço o menu do Il Perugino até de cabeça para baixo. Mas, em meio a risotos, gnocchi e receitas de carne, nunca havia prestado atenção ao singelo Spaghetti à Bolonhesa do cardápio. Neste dia, o prato me intrigou e decidi consultar o maître para saber se valia a pena prová-lo.

Ao ser perguntado sobre o spaghetti, o rosto do maître simplesmente se iluminou:

– É maravilhoso -, disse, com um largo sorriso.

Depois de recomendação tão enfática, não tive mais opção a não ser pedi-lo. E não me arrependi, caro leitor. O prato é realmente maravilhoso, na sua simplicidade e generosidade. O destaque é, sem dúvida, a cremosidade e o sabor do molho de carne moída e tomate, que cheguei a comer de colher ao final.

Não era macarronada de minha avó. Mas era especial e me trouxe, por um momento, uma lembrança boa e singela, de dias felizes que já não retornarão mais.

PS: Hoje felizmente a tradição da macarronada é mantida no lado Soares de minha família pelo meu tio e padrinho Sérgio.

Jornalista, carioca e tricolor

Jornalista, carioca e tricolor. Gasta certamente mais do que deveria em restaurantes e vinhos e hoje em dia só viaja para conhecer novos pratos e sabores. Considera-se um gourmet "clínica-geral": frequenta botecos de má fama do Centro do Rio com a mesma paixão que sente ao entrar num três estrelas Michelin. Apesar disso, não consegue esconder uma mal disfarçada predileção por lugares clássicos, com história, pátina e estrada. Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trabalhou em algumas das principais redações do País, como Gazeta Mercantil, O Estado de S.Paulo e O Globo. Além do Rio, já morou em São Paulo, Buenos Aires (onde foi correspondente do Globo) e Brasília. Hoje é sócio-diretor da FSB Comunicação, a maior empresa de Comunicação Corporativa do Brasil.

2 Comentários

  1. Excelente , Flávio, a sua abordagem de um clássico da culinária que também a mim traz boas memórias dos domingos da infância.

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