Madeleine, delícia francesa com aval literário

Madeleines_Foto Pixabay

Madeleines. Até quem nunca leu Em Busca do Tempo Perdido (*) associa esses bolinhos em forma de concha à obra literária de Marcel Proust (1871-1922). É que uma passagem do livro, muito citada até hoje, acabou dando uma aura cult à receita, apreciada pelos franceses desde por volta de 1750.

Em certo momento da história, o protagonista — e também narrador — é subitamente tomado por agradáveis sensações. “Esta nova sensação de ter tido em mim o efeito que o amor tem de me encher com uma essência preciosa”, ele descreve.

E logo em seguida “a memória se revela”. Ele se dá conta de que tais sensações são as mesmas que sentia na infância, nas manhãs de domingo em Combray (cidade da Normandia), quando sua tia Léonie lhe dava um pedaço daquele bolinho típico francês após mergulhá-lo numa xícara de chá.

A madeleine é feita basicamente a partir da mistura de farinha de trigo, manteiga, açúcar, ovos, raspas de casca de limão e fermento em pó. Claro, como toda receita, tem variações. Há quem troque as raspas de limão por baunilha ou água de flor de laranja. Há quem acrescente farinha de amêndoas… Tudo bem.

Agora, um detalhe importantíssimo numa autêntica madeleine é o formato de concha, que a identifica de cara. A ideia teria sido, dizem historiadores, de freiras de um convento dedicado a Maria Madalena, em Commercy, região de Lorraine.

Para pagar os seus boletos, as irmãs vendiam os bolinhos-concha à comunidade ao redor. Isso até a Revolução Francesa (1789-1799), quando os conventos foram abolidos no país. Aí as religiosas venderam a receita a confeiteiros da região, que se encarregaram de popularizar o quitute.

A certa altura, conta-se, era algo comum: quem fosse ou passasse por Commercy tinha que levar um pacote de madeleines na bagagem de volta — eram vendidos, inclusive, pelas janelas do trem. Uma obrigação, convenhamos, deliciosa.

E foi assim que, de tão popular, a madeleine viajou por mais de 500km e chegou à cidade de Combray, onde viva a tia Léonie, da imaginação de Marcel Proust. E chegou também ao Brasil, onde há quem aportuguese o nome, chamando os bolinhos de madalena.

Detalhe interessante é que manteve-se o formato, que as freiras conseguiam por meio de formas moldadas em madeira. Hoje em dia, compram-se formas de silicone para madeleines nas melhores casas do ramo de utilidades para o lar ou nos Alis Express e Mercados Livres da vida.

(*) Clássico da literatura francesa escrito por Marcel Proust em sete volumes, publicados entre 1913 e 1927.

Jornalista

Jornalista paraibano radicado em Brasília. Há 30 anos, trabalha com jornalismo cultural e, mais recentemente, com os assuntos de gastronomia. Passou pelas redações do Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal da Paraíba, Veja Brasília e site Metrópoles. É autor do livro O Fole Roncou, finalista do Prêmio Jabuti em 2013. Atualmente, também é editor do Boníssimo (link para bonissimo.blog), blog que aborda assuntos de cultura, diversão e ações positivas. Está no Gastronomix desde sua criação em 2009.

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