Gambrinus, tradição e consistência em Lisboa

gambrinus

Os cariocas com um pé no subúrbio, como eu, têm sensações contraditórias ao aportar em Lisboa. A primeira delas, forte como um soco no estômago, é a de uma familiaridade nostálgica, vinda dos rostos e prédios com que cruzamos e das lembranças mais profundas da infância. Depois chega o estranhamento: tudo parece, mas não é exatamente como sentíamos ou imaginávamos.

Mas não importa. Amo esta cidade com quase desespero e sinto não estar aqui com a frequência que gostaria. Trago no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo, com diria o Chico, e de saudades, acrescento eu.

A cena gastronômica lisboeta é meio assim também, contraditória como a sensação dos cariocas com a terra. Ainda encontramos aqui (felizmente!), por todos os lados, aqueles restaurantes com a cara de Portugal, ancorados na tradição da cozinha lusitana. E descobrimos também um mundo novo, contemporâneo, surpreendente, aberto a influências européias e do resto do mundo.

Entre os restaurantes considerados tradicionais, há excelentes opções na cidade. O Solar dos Presuntos (foto acima – o primeiro lugar onde jantei na Europa, ainda adolescente) mantém seu prestígio desde 1974, com grandes filas. O Tavares continua com sua cara de Confeitaria Colombo e ostenta o título de uma das casas mais antigas da Europa.

O Tavares tem aliás uma história deliciosa. Até hoje o lugar é conhecido como Tavares Rico, numa referência ao ambiente luxuoso e aos preços altos de sua ementa (como os portugueses chamam o cardápio). Isso porque um restaurante vizinho, o mais popular Farta Brutos, passou a ser chamado de Tavares Pobre, numa brincadeira típica do humor lusitano.

Mas, apesar da longa introdução, gostaria de falar aqui sobre o Gambrinus, fundado em 1936 e um de meus lugares favoritos em Lisboa. A casa tem tudo o que me faz vibrar com um restaurante: tradição e consistência, bom atendimento e excelente cozinha.

Ir ao Gambrinus é como entrar numa máquina do tempo que nos transporta a uma época mais gentil e elegante. O restaurante é todo de madeira, com móveis sólidos, tapeçarias, vitrais e um ambiente clássico. Os maîtres e garçons são extremamente profissionais e corteses, o que com alguma frequência falta nas boas casas do ramo em Portugal.

Nas vezes em que lá estive, sempre comi o prato clássico da casa: o empadão. É maravilhoso! Às segundas, ele é de perdiz, carne de caça rara no Brasil. Já as quintas, o de lagosta é opção imperdível, acompanhado de um frutado branco alentejano. Só assistir ao garçom cortar uma fatia do empadão gigantesco e fumegante vindo da cozinha já é um espetáculo.

O Gambrinus é enfim um porto seguro para os amantes de um Portugal verdadeiro e aferrado às suas tradições. Por isso, prezado leitor, lá sou feliz.

AVALIAÇÃO
Comida: 9/10
Ambiente: 9/10
Serviço: 9/10
Carta de vinhos: Excelentes opções portuguesas de todas as regiões.
Preços: Relativamente caros

Dica extra: Quem quiser conhecer o Gambrinus de uma maneira mais informal pode optar pelo simpático balcão (chamado de barra em Portugal) logo no início do restaurante. O menu ali é mais simples, à base de tapas e sanduíches. Clique aqui e veja um vídeo feito na ocasião do 80o aniversário do Gambrinus.

GAMBRINUS
Rua da Porta de Santo Antão 23
Telefone: +351 21 342 1466

Editores, colaboradores e convidados do portal Gastronomix.

Deixe um Comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.