Favada nordestina, versão local de um clássico mundial

Fava

Em quase toda capital nordestina você vai encontrar um Bar da Fava ou algo de nome parecido. Tem Bar da Fava em Maceió, já teve em Recife (fechou em 2017, lá era servida a fava da foto acima), tem Fava Praia Bar em João Pessoa, Restaurante da Fava em Natal… Nesses lugares o cardápio é diverso, mas a peça de resistência da casa é a fava, geralmente pedida em tamanho individual ou para ser compartilhado.

A fava (no Nordeste, é mais comum dizer somente fava mesmo do que favada) é uma espécie de feijoada feita com… favas, óbvio. Ou não tão óbvio, pois a favada tradicional da Astúria, na Espanha, a famosíssima fabada asturiana, não é feita com favas e sim com feijão branco, digamos, comum.

Não que fava não seja feijão, mas para os nordestinos é um tipo muito característico e distinto. Essa leguminosa tem grão maior e massudo, existe em diferentes tipos (as mais usadas são a rajada e a branca) e geralmente é encontrada seca nos mercados – mais difícil encontrá-la verde.

A favada asturiana é cozida com toucinho, morcilha, linguiça, joelho e costela de porco e para dar cor usa-se o açafrão. No Nordeste, a receita leva charque, paio, bucho de doi, rabo de porco, mocotó e há quem dê uma corada com colorau.

Com as devidas adaptações aos ingredientes disponíveis localmente, os brasileiros devem ter copiado a receita não dos espanhóis, mas dos portugueses que nos colonizaram. A favada transmotana, típica da região de Trás-os-Montes, é muito similar à asturiana.

Na verdade, segundo o pesquisador e escritor norte-riograndense Câmara Cascudo, que estudou os hábitos culinários brasileiros, esse negócio de misturar feijão com carnes não é exclusividade de ninguém. Vem desde o Império Romano.

A receita foi adaptada por diferentes culturas. Na França, por exemplo, tem o cassoulet; no México, os frijoles rancheros. E além de Brasil (que tem também a feijoada tradicional), Espanha, Portugal, França e México, você vai encontrar variações sobre o mesmo tema na Romênia, Macedônia, Bulgária, Turquia, Austrália…

Mas se formos estudar receita por receita, teremos que separar o que é feijoada e o que é favada. E nisso os nordestinos se garantem. Não ofereça a um deles feijão dizendo que é fava, que não vai colar mesmo. E se quiser experimentar em casa uma autêntica favada paraibana, siga a receita do cozinheiro Adilson Santana, que nesta matéria, inclusive, explica um pouco mais sobre o assunto.

Jornalista

Jornalista paraibano radicado em Brasília. Há 30 anos, trabalha com jornalismo cultural e, mais recentemente, com os assuntos de gastronomia. Passou pelas redações do Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal da Paraíba, Veja Brasília e site Metrópoles. É autor do livro O Fole Roncou, finalista do Prêmio Jabuti em 2013. Atualmente, também é editor do Boníssimo (link para bonissimo.blog), blog que aborda assuntos de cultura, diversão e ações positivas. Está no Gastronomix desde sua criação em 2009.

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