Da Roberta: hambúrguer frio. Uma desilusão!

daroberta

Fernando Pessoa certa vez comparou uma de suas decepções amorosas a uma dobrada à moda do Porto servida fria. Lembrou ainda o poeta que este não é prato que se possa comer frio. Tampouco um hambúrguer, acrescento eu. Mas hoje trouxeram-mo frio. Não me queixei, mas estava frio.

E a carne estar fria (parecia que ainda não havia descongelado totalmente) foi apenas um dos problemas da tarde. Faço a ressalva de que não trato aqui de um fast-food qualquer, mas de uma hamburgueria com grife: a Da Roberta, novo empreendimento da premiada (e excelente) chefe Roberta Sudbrack.
A nova casa fica numa das iniciativas mais interessantes lançadas ultimamente no Rio, o BE+CO, uma espécie de coletivo de restaurantes construído em contêineres em plena rua da Matriz, em Botafogo.

Voltando ao hambúrguer, lembro que estamos falando de um sanduíche gourmet, que custa 39 reais. Mas, infelizmente, tudo parecia conspirar contra a possibilidade de um bom lanche.

Para começar, o atendimento inexpressivo e desinteressado da caixa. Esta sequer se preocupou em perguntar qual ponto da carne preferíamos, falha que considero imperdoável para um lugar de hambúrgueres tão caros. Não me fiz de rogado e pedi que um dos sanduíches viesse ao ponto para mal.

O pedido causou alguma surpresa, mas não o suficiente para que houvesse um cuidado especial com o meu hambúrguer. O sistema de produção Da Roberta, testemunhei, é uma linha de montagem, muito parecida com qualquer McDonald’s da vida. E é claro que, no momento da finalização do meu pedido, simplesmente pegaram dois hambúrgueres da pilha já produzida e me entregaram.

O pior é que os dois sanduíches comprados estavam frios por dentro. É prato que nunca se pode comer frio, mas veio frio.

O percalço, no entanto, não atrapalhou nossa experiência no BE+CO. O lugar é agradável e conta com uma simpática oferta de opções, incluindo um árabe, o Zatar (que faz um delicioso sanduíche de kafta) e uma “bakery”, além de um bar e um asiático.

Passamos ali, enfim, uma preguiçosa tarde de primavera carioca numa daquelas ruas de Botafogo que me faz lembrar porque amo tanto esta cidade.

Dica extra: O poema que cito na introdução deste texto é um de meus favoritos e trata de uma desilusão amorosa de Fernando Pessoa, por meio de seu heterônimo Álvaro de Campos. Para quem não o conhece, segue aqui o texto completo:

DOBRADA À MODA DO PORTO
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo…

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Jornalista, carioca e tricolor

Jornalista, carioca e tricolor. Gasta certamente mais do que deveria em restaurantes e vinhos e hoje em dia só viaja para conhecer novos pratos e sabores. Considera-se um gourmet "clínica-geral": frequenta botecos de má fama do Centro do Rio com a mesma paixão que sente ao entrar num três estrelas Michelin. Apesar disso, não consegue esconder uma mal disfarçada predileção por lugares clássicos, com história, pátina e estrada. Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trabalhou em algumas das principais redações do País, como Gazeta Mercantil, O Estado de S.Paulo e O Globo. Além do Rio, já morou em São Paulo, Buenos Aires (onde foi correspondente do Globo) e Brasília. Hoje é sócio-diretor da FSB Comunicação, a maior empresa de Comunicação Corporativa do Brasil.

Deixe um Comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.