Confraria: prazer de comer e conversar

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Por que não conversamos mais? Será que o ritmo alucinante desta sociedade pós-moderna (tão atrasada em alguns aspectos, vide a recente onda de “backlash” político aqui e mesmo nos países mais desenvolvidos) matou nossa capacidade de diálogo? Sim, ando um tanto pessimista e desapontado com o rumo de nossa sociedade.

Surgiu dessa reflexão inclusive uma brincadeira familiar sobre um de meus antepassados, o senador Eusébio de Queirós. Ele foi em algum momento líder do Partido Regressista, denominação do movimento conservador durante o Império. Começamos, por isso, a brincar que eu seria o último dos regressistas.

Talvez, sim. Ultrapassamos recentemente limites de convivência que deveriam ser cláusulas pétreas de nossa sociedade. Sonho, portanto, com o regresso a tempos mais gentis, em que o respeito à opinião alheia é a regra e nos quais nos esforçamos para buscar consensos. Anseio pela retomada do diálogo e da busca de denominadores comuns no esforço de construção de uma sociedade mais justa e tolerante. Será pedir demais neste atual cenário de divisão?

Por conta dessa sensação, sempre destaquei aqui restaurantes tradicionais, onde há um sentimento de permanência e de valorização de princípios tão antigos quanto modernos e necessários. Casas nas quais há limites e mantêm-se códigos de convivência e respeito há muito colocados em xeque.

Uma casa assim esconde-se numa pequena rua de uma cidade pouco conhecida aqui no Brasil, Castelo de Vide, quase na fronteira do Alentejo com a Espanha. O restaurante A Confraria é um lugar para ir-se com calma, sem pressa. Lá, parte do prazer é conversar e escutar as histórias do Luís, seu proprietário.

Para começar, não há cardápio. O Luís irá à sua mesa para explicar os princípios da casa e contar o que há para se comer. A conversa inclui as origens dos pratos e dos ingredientes utilizados, as especialidades do restaurante, as tradições do Alentejo. E irá se estender quando ele começar a contar sobre a lista de vinhos, com mais de 40 rótulos da região.

A base da culinária do A Confraria são os pratos de caça e de porco preto alentejano. E tudo o que o Luís descreve parece ser absolutamente delicioso.

No dia de nossa visita, o menu do dia incluía gaspacho, lebre com feijão branco ou com arroz, bochechas de porco, pernil com castanhas, e porco com migas, entre outras opções. Era impossível escolher, leitor!

Para salvar seus clientes de um surto de indecisão imobilizadora, o restaurante criou uma espécie de menu degustação, no qual podemos escolher três ou quatro pratos, servidos em pequenas porções e com direito a reforço se a fome resistir. Seguimos a opção de quatro pratos e devo confessar que não nos arrependemos.

Os destaques para mim foram a tenra lebre servida com um delicioso feijão branco e as bochechas de porco, que mereceram um pedido agradecido de reforço.

O resultado final foi um almoço de três horas e meia de muita conversa na Confraria, comida indescritível, excelente vinho da região (estamos no Alentejo afinal!) e uma aguardente artesanal como fecho. E a certeza, caro leitor, de que ainda existe delicadeza neste mundo.

AVALIAÇÃO
Comida: 9/10
Ambiente: 7/10
Serviço: 9/10
Carta de vinhos: Mais de 40 opções locais para todos os bolsos.
Preços: Em conta

Dica extra: Castelo de Vide é uma cidade linda e possui um castelo que ainda abriga uma vila habitada, como nos tempos medievais. Outra excelente opção de passeio (um pouco mais “roots”) na região é Marvão, vila medieval encrustada no alto de uma montanha. O castelo de lá fica aberto à noite, o que faz da visita uma experiência inusitada.

CONFRARIA
Rua de Santa Maria de Baixo 10
Castelo de Vide – Portugal 
Telefone: +351 916 603 652

Jornalista, carioca e tricolor

Jornalista, carioca e tricolor. Gasta certamente mais do que deveria em restaurantes e vinhos e hoje em dia só viaja para conhecer novos pratos e sabores. Considera-se um gourmet "clínica-geral": frequenta botecos de má fama do Centro do Rio com a mesma paixão que sente ao entrar num três estrelas Michelin. Apesar disso, não consegue esconder uma mal disfarçada predileção por lugares clássicos, com história, pátina e estrada. Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trabalhou em algumas das principais redações do País, como Gazeta Mercantil, O Estado de S.Paulo e O Globo. Além do Rio, já morou em São Paulo, Buenos Aires (onde foi correspondente do Globo) e Brasília. Hoje é sócio-diretor da FSB Comunicação, a maior empresa de Comunicação Corporativa do Brasil.

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