Comer com estrelas…Nem sempre é aquela constelação

bernardin

Conquistar estrelas Michelin é um mérito e tanto para um restaurante. Os inspetores do guia são criteriosos e valorizam qualidade e criatividade. E, na maior parte das vezes, acertam no alvo, destacando casas diferenciadas no cenário gastronômico.

Isso não significa que o cliente, necessariamente, ficará feliz com um jantar apenas porque uma casa foi galardonada com estrelas. Muitos fatores influenciam a experiência num restaurante, começando por gostos pessoais, variações no menu, escolha do vinho etc.

Apesar de não ser um especialista, já visitei um número razoável de restaurantes estrelados, aqui, nos Estados Unidos e na Europa. Posso assegurar que tive algumas experiências sublimes e inesquecíveis, mas também outras nada memoráveis.

Algumas casas foram realmente surpreendentes, cada uma de sua maneira. Na categoria três estrelas, Eleven Madison Park, em Nova York, nos impactou pela criatividade, sem falar na carta de vinhos espetacular. O Le Bernardin, na mesma cidade, se destaca pelo frescor de seus frutos do mar, com um percurso que começa com pratos crus e segue num crescendo em termos de cozimento. Em Paris, o Pavillon Ledoyen, do chef Yannick Alléno, é de uma elegância insuperável. Isso sem falar na delicadeza do menu do chef Martin Berasategui, em San Sebastián, na Espanha.

Mas nem sempre a melhor experiência gastronômica acontece num três estrelas. Como esquecer o “caneton a la presse” (ou “au sang”) do La Tour d’Argent, um lugar histórico e dos mais elegantes da noite parisiense? Ou a descoberta do lindo Apicius, ainda sob o comando do chef Jean-Pierre Vigato, com seu menu fortemente influenciado pela cozinha do campo? E o L’Atelier de Joel Robuchon, minha introdução às grandes mesas do mundo?

São enfim muitas lembranças. E também alguns aprendizados importantes para quem quer desfrutar desse universo quando viaja ao exterior. O primeiro deles é a necessidade de planejamento: muitos desses restaurantes são bastante disputados e demandam reserva feita com antecedência.

O outro é o seguinte: não planeje demais! Evite a tentação de sair do Brasil com reservas feitas para todas as noites do roteiro e deixe espaço para aquele pequeno restaurante desconhecido que você irá descobrir por acaso numa esquina discreta ou numa cidadezinha do interior. O acaso é um lindo companheiro de viagem.

Dica extra: Há alguns meses um colunista de jornal disse que o La Tour d’Argent era um restaurante ultrapassado e frequentado por brasileiros “nouveaux riches”. Como fã da casa, dona de uma das melhores cartas de vinho do mundo, fortemente centrada na Borgonha, discordo dessa análise preconceituosa. A experiência no La Tour d’Argent é deliciosa (e cara). Para quem quiser conhecer melhor o restaurante e a receita de “caneton a la presse”, recomendo este vídeo (em inglês) feito por um jornalista do The Guardian.

Jornalista, carioca e tricolor

Jornalista, carioca e tricolor. Gasta certamente mais do que deveria em restaurantes e vinhos e hoje em dia só viaja para conhecer novos pratos e sabores. Considera-se um gourmet "clínica-geral": frequenta botecos de má fama do Centro do Rio com a mesma paixão que sente ao entrar num três estrelas Michelin. Apesar disso, não consegue esconder uma mal disfarçada predileção por lugares clássicos, com história, pátina e estrada. Formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trabalhou em algumas das principais redações do País, como Gazeta Mercantil, O Estado de S.Paulo e O Globo. Além do Rio, já morou em São Paulo, Buenos Aires (onde foi correspondente do Globo) e Brasília. Hoje é sócio-diretor da FSB Comunicação, a maior empresa de Comunicação Corporativa do Brasil.

Deixe um Comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.