Carta para Juliana: um Leblon que já não existe mais

leblon1

A memória dói, Juliana. É como a imagem de Itabira naquele quadro na parede, que ainda faz a cabeça latejar depois de tantos anos. Camões falava, num lindo soneto, da “grande dor das cousas que passaram”, talvez a mais perfeita definição da palavra saudade. Mesmo mais de quatro séculos atrás, ele já sabia das coisas.

Você é jovem (eu ia dizer mais ou menos jovem, por conta da nossa piada interna, mas vamos seguir assim…) e tem muito viver pela frente. Ainda que eu não seja exatamente um velho, passei por muitas “cousas”. Perdi amigos queridos, vi uma geração de minha família partir, trabalhei em lugares geniais que não existem mais, mudei de casa, bairro, cidade algumas vezes. Frequentei bares desaparecidos, alguns esquecidos na bruma do tempo, outros vivos na memória de alguns e na crônica da destruição desta cidade.

É verdade que eu talvez seja um nostálgico, quase obsessivo com esses temas relacionados ao passado. Deve ser o meu lado capricorniano, mencionado naquela primeira coluna sobre o Rio Minho. A questão é que não consigo evitar.

Na verdade, escrevo para te contar sobre um Leblon que já não existe mais. Não sei dizer se era melhor ou pior do que é hoje, mas recordar me faz sentir um travo na garganta.
Naquele tempo, Jobi e Bracarense tinham competição de verdade no quesito boteco. Existia o Luna, um pouco mais à frente na Ataulfo de Paiva. Tomava-se o tradicional chope em pé (também assunto de uma coluna passada) com a barriga assentada ao balcão do Flor do Leblon naquelas tardes vagabundas de verão.

Na Dias Ferreira, comíamos pastéis e feijoada no Final do Leblon, com seus lindos azulejos de personagens portugueses típicos. Na madrugada, nos refugiávamos no Bozó, bem ali ao lado. Lembro-me, com tristeza, de uma das últimas noites do Bozó, pouco antes de seu fechamento, com o ambiente dominado por um sentimento de derrota e decadência.

Na praia, o cenário era dominado pelo imponente Caneco 70, bar que desafiava a máxima buarquiana de que carioca não gosta de frequentar estabelecimentos à beira-mar. O lugar era enorme (ou será essa uma daquelas pegadinhas da memória?) e tornou-se o point por excelência das comemorações pós-jogos da seleção.

Mas o centro de nossa vida eram as esquinas de Ataulfo e Aristides Espínola. Numa delas ficava o mítico Real Astória, com suas mesas permanentemente cheias e a expectativa constante de alguma performance que mudasse o rumo da noite. Na outra, a Pizzaria Guanabara, quando ainda não sabíamos bem quem era o Recarey e, na madrugada, achávamos aquela a melhor pizza do mundo.

Isso sem mencionar tantos outros lugares que fecharam ou perderam (perdi?) parte de sua graça: Diagonal, Pronto, Garota do Leblon, Tio Sam…
Mas nem tudo é tristeza nesta coluna. Há casas no Leblon que conservam o espírito dessa época e ainda me aquecem o velho coração boêmio. Além dos citados Jobi e Bracarense, não deixe de conhecer e frequentar marcos da boa tradição lebloniana, como Alvaro’s, Degrau, Le Coin , Galeto do Leblon (apesar da pavorosa reforma que que descaracterizou seu salão) e a brava Academia da Cachaça.

Faço com você este passeio por memory lane, Juliana, para contar um pouco do que fui e de como o Leblon foi importante para a minha geração. Você está construindo sua história e terá também, no futuro, seus lugares do coração, guardados em algum lugar indefinido e precioso.

Editores, colaboradores e convidados do portal Gastronomix.

Deixe um Comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.