Batatas foram a “Geni” dos europeus

batatas

Sabe aquela história da música “Geni e o Zepellin”, de Chico Buarque? Para quem não lembra: por dar para qualquer um, Geni é amaldiçoada pela sociedade, nela jogam qualquer porcaria. Mas no momento em que surge uma grande ameaça e ela é a única que pode salvar todo mundo, passa a ser a “bendita Geni”.

Foi mais ou menos esse o papel da batata na Europa, logo após a “descoberta” da América por Cristóvão Colombo, em 1492. O tubérculo era a base da alimentação dos incas, junto com milho e feijao. Mas quando os exploradores voltaram ao Velho Continente levando a batata na bagagem, os europeus acharam muito estranha a novidade.

Representantes da Igreja consideravam que, por não serem citadas na Bíblia, era bem provável que Deus não queria que os homens as comessem. Os especialistas em hervas simplesmente achavam a batata feia, parecida com as mãos de um leproso. Daí concluírem que quem a comesse iria contrair lepra.

E os botânicos botaram lenha na fogueira com argumentos pretensamente científicos. Classificaram as batatas — que até ali era um dos primeiros tubérculos a serem consumidos como alimento — como integrante da venenosa família da doce-amarga, um arbusto nativo da Eurásia e Norte da África.

Pronto. As batatas passaram a ser consideradas coisa do diabo. Mas quase um século depois, com a fome se abatendo sobre o continente europeu como um Zepelin gigante, a coisa mudou de figura. Na falta do trigo, que era então o esteio da alimentação dos europeus, restavam as batatas. Pois que fossem.

As batatas começaram a ser consumidas por irlandeses e depois em outras partes do continente.  Soldados franceses que lutaram em batalhas em Flandres (norte da Bélgica) e na Renânia (oeste da Alemanha) e na Guerra dos Sete Anos (1756-1763), na Prússia, conheceram o alimento durante as campanhas e, na volta, se tornaram defensores do seu uso no prato.

Pronto, a batata virou o pão dos pobres… E logo, dos ricos também.

Fonte: “Uma História Comestível da Humanidade” (Tom Standage). Foto: 123rf.

 

Jornalista

Jornalista paraibano radicado em Brasília. Há 30 anos, trabalha com jornalismo cultural e, mais recentemente, com os assuntos de gastronomia. Passou pelas redações do Jornal de Brasília, Correio Braziliense, Jornal da Paraíba, Veja Brasília e site Metrópoles. É autor do livro O Fole Roncou, finalista do Prêmio Jabuti em 2013. Atualmente, também é editor do Boníssimo (link para bonissimo.blog), blog que aborda assuntos de cultura, diversão e ações positivas. Está no Gastronomix desde sua criação em 2009.

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